O Batismo de Jesus.


O batismo de Jesus, início de Seu ministério público, é um ato de identificação com a humanidade pecadora.

INTRODUÇÃO

– O batismo de Jesus é o ato inaugural do ministério público de Jesus, quando o Senhor Se revela como o Messias, o Salvador do mundo para o Seu povo.

– No batismo, Jesus mostra que veio Se identificar com a humanidade pecadora, submetendo-Se, como homem, ao cumprimento da vontade de Deus. Por isso, batizou-Se embora não tivesse pecado.

I – O BATISMO NO JUDAÍSMO E O BATISMO DE JOÃO

Colaboração/Gráfico: Enomir Santos

– A palavra “batismo” é grega, vem de “batisma” (βαπτισμα), cujo significado é “mergulho”, “imersão”, prática que foi iniciada entre os judeus quando, já na época helenística (ou seja, o período que se seguiu à dominação grega do Oriente Médio), iniciou-se o chamado “movimento missionário judeu”, quando se passou a haver a conversão de gentios ao judaísmo, os chamados “prosélitos” (Mt.23:15). Como os gentios eram considerados pessoas imundas (At.10:28), passou-se a exigir que o convertido ao judaísmo não só se circuncidasse, como também, participasse de uma lavagem cerimonial de todo o corpo, por imersão em uma “mikvah” ou “mikveh” (”acumulação de água”, em hebraico, isto é, piscina ritual ou casa de banhos), gesto este que passou a se denominar “batisma”, em grego, e que os estudiosos denominam de “batismo judaico” ou “batismo de prosélitos”, algo que se encontra hoje devidamente regulamentado no Talmude (segundo livro sagrado do judaísmo) e no Shulchan Arukh (código de leis judaicas, feito no século XVI e que é a principal fonte normativa dos judeus ortodoxos até os dias de hoje).

– Segundo este ritual judaico, o gentio decidido a abraçar a fé judaica deveria, na presença de, pelo menos, três homens judeus, deveria acreditar em Deus e estar disposto a cumprir todos os mandamentos, circuncidar-se e submeter-se a este banho ritual, homens estes que deverão recitar trechos da Torá enquanto o prosélito mergulha na “mikvah”, purificando-se, portanto.

– Com o surgimento de João, este batismo, que não desconhecido do povo judeu, passa a ser pregado também para os judeus e a ênfase deste tema na pregação é que explica porque ficou ele conhecido como “João Batista”, ou seja, “João, o batizador, aquele que batiza”. João, porém, associou a idéia do arrependimento de pecados ao ato simbólico de imersão na água, pois, e no judaísmo ainda assim é pensado, o arrependimento, ou seja, a “Teshuvá” é um ato totalmente distinto da “mikvah”, que tem a ver apenas com a purificação cerimonial, a limpeza do corpo. Para João, porém, o batismo era uma confissão pública de arrependimento dos pecados, tendo sido esta a essência da sua pregação que, como nos diz o profeta Isaías, vinha “preparar o caminho do Senhor” (Is.40:3).

– O batismo de João tinha, portanto, a função de preparar o povo de Israel para a verdade que o Messias somente poderia ser recebido mediante o arrependimento dos pecados, mediante uma nova vida de pureza que se seguiria a uma confissão pública dos pecados, confissão esta simbolizada pelo “batismo”, ou seja, pelo mergulho, pela imersão em água.

– Até a pregação de João Batista, o que havia, entre os judeus, era tão somente a “lavagem cerimonial”, a purificação por meio da água de algumas espécies de imundícies, cerimônias estas que, já na época de Cristo, eram chamadas pelos judeus de fala grega (os judeus da diáspora, ou seja, das colônias judaicas espalhadas pelo mundo) de “baptismós” (βαπτισμός), lavagens estas que tanto se encontravam na lei escrita (Lv.15:5-7, v.g.) quanto na tradição oral dos judeus (Mc.7:4,8; Jo.2:6).

– A lavagem com água para purificação cerimonial era uma constante da lei de Moisés e uma verdadeira figura do batismo em água da atual dispensação, que, por sua vez, é um símbolo da santificação operada pela salvação do homem na pessoa de Cristo Jesus. As determinações a respeito da lavagem eram tantas que um tratado inteiro do Talmude, o segundo livro sagrado do judaísmo, é dedicado exclusivamente a este assunto (o Tratado Micvaot, da ordem Tahorot). Como diz Nathan Ausubel, “…a mikvah [em hebraico significa ‘acumulação de água’, isto é, piscina ritual ou casa de banhos, observação do autor em outro trecho do texto] era quase tão importante e indispensável para a vida religiosa quanto a sinagoga, a Casa de Estudo (Bet ha-Midrash), o Talmud Torah {o estudo da Torah, i.e., da lei, observação nossa] e o cemitério sagrado. Na verdade, toda comunidade judaica era obrigada pela lei rabínica a manter uma mikvah….” (Mikvah. In: A Judaica, v.6, p.559).

OBS: É interessante notar que, ao falar da purificação da mulher, o Código de Leis judaico, o Schulchan Aruch, compilado por Yosef Caro, em 1565, e que é, até hoje, o principal guia dos judeus ortodoxos, é bem claro ao exigir a imersão completa da mulher: “…(1) uma mulher não se levanta de seu status de Too-mah {impureza ritual} com a lavagem em um banho, e mesmo se todas as águas no mundo passassem sobre ela, remanesceria em seu status de Too-mah. [Além disso] alguém seria responsável por ka-reth {palavra hebraica que significa “imundo”, “separado”, “mantido à parte’, observação nossa] por [coabitar com] ela, até que ela imerja seu corpo inteiro de uma só vez nas águas de uma mikveh ou em uma fonte que contivesse 40 seás [cada seá equivalia a aproximadamente 7 litros, observação nossa]. E sua medida é um amah [medida de comprimento que equivale a aproximadamente 50 cm, observação nossa] por um amah pela altura de 3 amot {plural de “amah”, observação nossa] cúbicos, usando um amah que seja 6 Te-fa-khim mais uma metade de um dedo longo. [Além disso] se for mais larga [do que um Amah] e não for assim tão profundo [ como três amot] é adequado se puder cobrir seu corpo inteiro neles {as águas do Mikveh} de uma só vez. Requer-se que o corpo de água total seja [ ao menos ] 44.118 dedos quadrados de comprimento e uma metade extra {44.118.375 precisamente}. Requer-se que a cavidade em que a água estiver seja maior do que esta medida, a fim de que quando a estiver imergindo entre, a água se levante e ainda haja 40 seás restantes….” (Shulchan Aruch, Yoreh Deah 201. Disponível em: http://en.wikisource.org/wiki/Shulchan_Aruch/Yoreh_Deah/201 Acesso em 01 dez. 2006. Tradução nossa baseada em texto produzido pelo tradutor do site).

– É quase que intuitivo associar-se a água à idéia de purificação, diante do papel que a água exerce no cotidiano do ser humano, em todas as épocas da história da humanidade, de modo que não é difícil encontrar-se entre os povos, ainda os de organização mais simples, a atribuição à água de uma função de purificação, em especial sob o aspecto religioso, ou seja, das relações entre o homem e a divindade. Tal circunstância, tão explorada por alguns adversários da doutrina cristã, para tentar “desmistificar” esta ordenança de Cristo, é mais uma demonstração de que Deus não quis deixar nenhum ser humano em condições de se desculpar a respeito de não poder ter havido alguma revelação de Deus para si (Rm.1:19,21).

– O batismo de João, portanto, é o aprofundamento desta simbologia das lavagens cerimoniais da lei, é mais um passo da revelação progressiva de Deus, onde o profeta apresenta o batismo como um ato que simboliza a verdadeira purificação do homem, que é a purificação espiritual, ato que exige, porém, antes, o arrependimento dos pecados.

– Não se pode, pois, confundir o batismo de João com as cerimônias existentes na lei, nem tampouco, como costumam fazer alguns estudiosos na atualidade, com os rituais de purificação que foram estabelecidos pelos essênios, uma das seitas judaicas existentes no tempo de João e de Jesus. Não resta dúvida de que os essênios eram pessoas muito parecidas com João, pois, a exemplo de João, isolavam-se da sociedade e viviam em comunidades no deserto, buscando ter uma vida de privações e de dedicação integral a Deus. Nestas comunidades separadas, conforme nos provam os manuscritos do Mar Morto, que são escritos de comunidades essênias, verificou-se que havia toda uma série de leis e regras relativas às purificações, mas nada que nos permita assimilar tais práticas ao batismo pregado por João, até porque a mensagem de João era essencialmente diferente da dos essênios. João não exortava o povo a se separar da sociedade e passar a viver separados, em devoção a Deus, mas, muito pelo contrário, João pregava para que o povo se arrependesse dos pecados e se preparasse, assim, para receber o Messias que estava para chegar.

– O batismo de João, como vemos na pregação deste profeta, tinha por objetivo o testemunho público do arrependimento dos pecados e um compromisso de seguir a lei até a chegada do Messias, que era anunciada para aqueles dias (Mt.3:2; Mc.1:4; Lc.3:3). Era, portanto, um batismo preparatório para a chegada de Cristo, uma preparação do povo para receber o Messias prometido, mediante o arrependimento dos pecados e a observância da lei. Por isso, é dito que a lei durou até João (Lc.16:16), pois João foi o último profeta a levar o povo à prática da lei, agora já expressamente pregado que a lei deveria durar até a chegada do Messias, que foi apontado pelo próprio João ao povo (Jo.1:29).

– O batismo de João, portanto, cumpriu o seu papel quando se iniciou o ministério terreno de Jesus, tanto assim que, a partir de então, o papel de João foi decrescendo à medida que o de Jesus ia aumentando (Jo.3:30). Tanto assim é que, no início do ministério terreno de Jesus, ainda envolvidos com a prática de João, os discípulos de Jesus continuaram a batizar, a exemplo de João e seus discípulos (Jo.4:1,2), uma prática que demonstra bem o entendimento de que, em Jesus, se cumpria a promessa messiânica. Os discípulos de João iriam continuar, porém, a sua pregação, a despeito da chegada de Cristo, tanto que Paulo encontrará, décadas depois, pessoas em Éfeso que somente conheciam o batismo de João (At.19:3), batismo, porém, que perdeu a sua função e razão de ser assim que Jesus foi batizado, pois, a partir de então, inicia-se o ministério terreno de Cristo, a manifestação da graça de Deus que traz salvação a todos os homens.

II – O MINISTÉRIO DE JOÃO BATISTA

Colaboração/Gráfico: Jair César

– Para bem entendermos o batismo de Jesus por João Batista, torna-se indispensável entendermos o próprio ministério de João Batista, o último e maior profeta da lei (Mt.11:13; Lc.7:28; 16:16).

– João foi escolhido desde o ventre de sua mãe para ser o precursor do Messias. Ele tinha plena consciência disto, pois, ao ser considerado como o Messias, claramente disse que não era o Cristo, mas, sim, a “voz que clama no deserto” (Mt.3:3; Mc.1:3; Lc.3:4; Jo.1:23), mostrando, assim, que era o cumprimento de uma profecia de Isaías (Is.40:3,4).

– João veio encerrar o período de praticamente quatrocentos anos em que o Senhor não mais levantara profetas em Israel. Com efeito, desde Malaquias, Deus não havia levantado qualquer profeta entre os judeus, num silêncio que só foi interrompido com o surgimento de João, que era cerca de seis meses mais velho que Jesus, sendo dEle aparentado, como nos dá conta o evangelista Lucas que, em suas pesquisas rigorosas, dá-nos a informação a respeito do anúncio do nascimento de João (Lc.1:5-25, 36, 57-66).

– João mostra toda a sua sublimidade entre os profetas, em primeiro lugar, por ter tido o seu nascimento, miraculoso, anunciado pelo anjo Gabriel, o mesmo ser que faria o anúncio do nascimento do Messias (Lc.1:19). Mostra-se, assim, que o nascimento de João era algo sobrenatural, fruto exclusivo da vontade de Deus e que estava umbilicalmente relacionado com a vinda do Messias.

– Em seguida ao anúncio, houve incredulidade por parte de seu pai, o sacerdote Zacarias, circunstância que também revela um outro ponto peculiar do ministério de João, qual seja, a de que seria rejeitado pela classe dirigente de Israel, que sua mensagem não seria crida por parte dos escribas, fariseus e sacerdotes (Mt.21:25). Assim, a rejeição por parte desta classe também demonstrava que João era, também neste quesito, um precursor do Messias, que não seria, também, aceito pelos israelitas (Jo.1:11).

– João, também, desde o ventre de sua mãe, foi cheio do Espírito Santo (Lc.1:15), outra circunstância peculiar que o distingue de outros profetas, cuja unção se deu, no mais das vezes, ao longo de suas vidas (I Sm.16:13; II Rs.2:9), ainda que isto não tenha sido exclusividade de João, pois outros casos houve de unção desde o ventre da mãe, como, por exemplo, no caso de Sansão (Jz.13:5). Prova de que João era cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe é a circunstância de que saltou no ventre de Isabel quando Maria, já grávida, foi visitá-la (Lc.1:41,44).

– A sublimidade do ministério de João Batista, porém, encontra-se precisamente na circunstância de que, ao contrário dos demais profetas, ter visto e sentido a presença física e real de Jesus Cristo, do Messias encarnado. Neste ponto, João superou a todos os demais profetas, que só puderam predizer a vinda do Messias, mas não contemplá-lO cheio de graça e de verdade. João pôde ver a Jesus, quando do Seu batismo, e apresentá-lO como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo.1:29). Assim, ao contrário dos outros profetas da antiga aliança, teve o mesmo privilégio dos servos do Novo Testamento, qual seja, o de contemplar o Salvador (I Pe.1:10-12).

– Vemos, pois, que João Batista tinha a missão de preparar o caminho do Senhor, ou seja, dar conhecimento da salvação ao povo de Israel, na remissão dos seus pecados, pelas entranhas da misericórdia de Deus, para alumiar aos que estão assentados em trevas e sombra de morte, a fim de dirigir os pés pelo caminho da paz (Lc.1:77-79).

– O ministério de João Batista era, portanto, o de mostrar ao povo de Israel da necessidade que tinham de se arrepender dos seus pecados e dar frutos dignos de arrependimento, a fim de que estivessem prontos para receber o Messias e, desta forma, alcançar a redenção de Israel. A mensagem de João era a mensagem do arrependimento, um prenúncio do Evangelho que seria pregado pelo próprio Jesus (Lc.3:7,8).

– João Batista mostrava aos judeus que os verdadeiros filhos de Abraão não o eram biologicamente, mas, sim, aqueles que observassem os mandamentos, que obedecessem a Deus. Daí ter introduzido a prática do batismo para os judeus, quando, como vimos supra, tinha-se como um ritual exclusivo dos gentios que aceitavam o judaísmo, tornando-se prosélitos.

– A pregação de João Batista era vigorosa, contundente, levando multidões a se arrepender dos pecados. João Batista não fez milagre algum (Jo.10:41), mas sua palavra era ungida pelo Espírito Santo, era um grande porta-voz de Deus e tudo quanto disse a respeito de Jesus, ainda naquela geração, ainda durante o ministério terreno de Jesus, confirmou ser verdadeiro.

– João também preparou o ministério de Jesus porque não fez qualquer distinção entre as pessoas. Pregava tanto ao povo quanto a elite, a todos os segmentos sociais (Lc.3:10-14). Jesus, de igual modo, assim procederia, pregando a todo o povo indistintamente.

– João, porém, faz questão de mostrar sua inferioridade frente ao Messias cujo caminho preparava. Indagado se era o Cristo, sempre o negou, dizendo que o Cristo estava para vir, mas que ele, João, não era sequer digno e desatar a correia das Suas alparcas (Lc.3:16). Deste modo, João mostrava, claramente, que seu ministério, apesar de vigoroso e de ser o maior da antiga aliança, era inferior ao de Jesus e que, portanto, a lei não poderia subsistir após o aparecimento do Senhor Jesus, algo que muitos ainda têm dificuldade de compreender mesmo depois de quase dois mil anos.

III – O BATISMO DE JESUS

– O batismo de Jesus é o ponto culminante do ministério de João Batista. João deveria preparar o caminho para o Messias e seu último ato seria apresentá-lO fisicamente ao povo de Israel. Isto se fez quando do batismo de Jesus. A João havia sido revelado pelo Espírito Santo que o Messias seria Aquele que, ao Se apresentar para o batismo, seria identificado como Aquele sobre o qual pousaria o Espírito Santo na forma corpórea de pomba (Jo.1:32-34).

– João, mesmo, não sabia que deveria batizar Jesus. Sabia que o Messias viria ao seu encontro para ser batizado. João, pelo Espírito Santo, sabia perfeitamente que o Messias era homem e era Deus. Com efeito, João tinha consciência que, embora fosse mais velho que o Messias, Este era antes dele (Jo.1:30), ou seja, o Espírito revelara a João que o Messias era eterno.

– Quando Jesus Se apresenta para ser batizado, o sinal que havia sido revelado a João pelo Espírito Santo Se verifica, qual seja, o de vir pousar sobre ele uma pomba. Assim, João, sabendo que Jesus era o Messias aguardado, não quis batizá-lO, como nos dá conta o evangelista Mateus (Mt.3:14).

– João não queria batizar Jesus porque sabia que Jesus não tinha pecado, era o único de todos quantos haviam Se apresentado para batismo que havia recebido o pousar do Espírito Santo em forma corpórea de pomba. O fato de só Jesus ter este sinal é a demonstração de que Jesus era o único homem, sobre a face da Terra, que pecado algum tinha, que estava em plena comunhão com Deus. Este sinal dado a João era uma evidência de que Jesus nunca pecou antes mesmo de Se apresentar publicamente, quando, então, tal qual o cordeiro pascal, deveria ser apreciado pelo povo, por três dias (que correspondem aos três anos do ministério público) que verificaria se tinha, ou não, algum defeito, um verdadeiro teste antes de ser levado ao sacrifício (Ex.12:3-6).

– A identificação de Jesus como o Messias a João deu-se por revelação do Espírito Santo (Jo.1:32-34). Mais uma vez, observamos que não há como vermos em Jesus o Messias a não ser pelo Espírito de Deus. Muitos querem ver Jesus como o Messias através da razão, de provas científicas, de descobertas arqueológicas e tantas outras demonstrações que satisfaçam a sua mente. Todavia, quando contemplamos as Escrituras, vemos que não há como reconhecer Jesus como Senhor e Salvador a não ser por uma revelação divina (Mt.11:27; Lc.10:22; Jo.16:13-15).

– João opôs-se a batizar Jesus, porque não tinha como entender como e porque deveria batizar alguém que não tinha pecados. Esta notícia da oposição de João é uma das provas bíblicas de que Jesus jamais pecou, mas também suscita uma discussão: se Jesus não tinha pecado, por que, então, Se batizou?

– A oposição de João (Mt.3:14) é designada, na língua grega, pela palavra “diakolyo” (διακωλύω), que significa “impedir”, “lançar objeções”. João, pelo que se verifica, portanto, tentava, através de um diálogo, de argumentações, convencer Jesus de que Ele não necessitava ser batizado, mas, sim, que, ele, João, é que deveria ser batizado por Jesus.

– Entretanto, os argumentos de João não foram convincentes. Jesus tinha plena consciência de que era o Filho (algo que, como vimos na lição anterior, foi demonstrado quando de Sua assunção de responsabilidade perante a lei, quando tinha doze anos de idade), que estava em plena comunhão com Deus, mas que era da vontade de Deus, era absolutamente indispensável que Se batizasse nas águas, atendendo ao chamado de João.

– Esta oposição de João e a subseqüente contra-argumentação vencedora de Jesus também é elucidativa para afastarmos uma das heresias que, cedo, surgiu no meio da Igreja, o gnosticismo, que dizia que Jesus, com o batismo, Se tornou o Cristo, isto é, que, só a partir do batismo, Jesus Se tornou o Filho de Deus, como se o batismo tivesse inserido a divindade na pessoa de Jesus, divindade esta que teria “abandonado” a Jesus na cruz, pouco antes de Sua morte. Contra este pensamento, levantaram-se os apóstolos, que insistiram que a plenitude da divindade sempre habitara em Jesus (Cl.1:19), que veio em carne (I Jo.4:2,3) e não que tenha se apossado de uma carne pré-existente.

OBS: “…Para os gnósticos, o batismo de Jesus assinalou o instante em que foi possuído pelo aeon, ou poder angelical, ou, como alguns deles supunham, pelo Espírito de Cristo. Desde então, o corpo de Jesus passou a ser manipulado por esse elevado poder angelical, a fim de realizar a elevada missão de que fora encarregado, embora sem a identificação da pessoa ente Jesus e esse poder. Por essa razão, os gnósticos davam valor ao batismo de Jesus, mas não à expiação por meio de Seu sangue (ver I João 5:6). Ainda segundo os gnósticos, esse poderia teria abandonado a Jesus por ocasião de Sua morte, razão pela qual Ele soltou Seu grito de desespero: ‘Pai, por que Me abandonaste?’. Portanto, os gnósticos rejeitavam qualquer idéia de identificação das naturezas divina e humana em Cristo Jesus….” (CHAMPLIN, Russell Norman. Batismo de Jesus. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, pp.462-3).

– Jesus tinha plena consciência de quem era antes do batismo e, precisamente, porque sabia o que deveria fazer e que obra deveria cumprir na face da Terra, por ordem do Pai, foi ser batizado por João, João, mesmo, que, como homem, não tinha consciência do significado deste gesto, pois isto ainda não lhe fora revelado pelo Espírito Santo.

– Neste ponto, também, vemos como estão equivocadas as opiniões de muitos teólogos liberais dos últimos tempos, que entendem que o fato de Jesus ter ido buscar o batismo de João era a prova de que Jesus Se sentia pecador, como qualquer outro ser humano. Assim, também teria Se arrependido de Seus pecados e ido ao encontro do “Batizador” para atender ao chamado do profeta. Nada mais absurdo e contrário às Escrituras. Se assim fosse, por que João teria querido se opor a este gesto e só em relação ao Senhor Jesus? Tal pensamento é uma sutil forma de negar a divindade de Jesus, mais uma tentativa de “racionalizar” algo que está além da razão humana, ou seja, a dupla natureza de Jesus.

– João, embora fosse o “batizador” (e, por isso, era chamado de “Batista”, ou seja, aquele que batiza), reconheceu que Jesus era o Messias e, portanto, que “carecia de ser batizado por Jesus” (Mt.3:14). Esta afirmação de João, feito por inspiração do Espírito Santo, também anunciava o batismo cristão, que haveria de ser implantado pelo Senhor Jesus, batismo este que não se confundia com o batismo que era pregado por João. João, que reconhecia que Jesus era mais poderoso do que ele (Mt.3:11), incluía, neste poder maior, a capacidade de batizar nas águas.

– Esta afirmação de João é elucidativa, porque, na atualidade, muitos argumentam a respeito do batismo cristão, dizendo que não há qualquer passagem do ministério terreno de Jesus em que tenha ocorrido o rito do batismo, que só é mencionado no término do Evangelho segundo Mateus, após a ressurreição de Jesus e como prática tão somente pelos apóstolos, que, aliás, não teriam sido batizados, mas só teriam batizado.

OBS: “…Do Novo Testamento não consta nenhuma cena de batismo ao qual Jesus teria sido submetido. Um único versículo, João 3.22, menciona que Cristo e Seus discípulos foram à Judéia, onde Ele Se hospedou e batizava. Ignora-se até se os apóstolos, salvo talvez os que tinham sido anteriormente discípulos de João, como André, receberam o batismo de arrependimento. Mas Jesus, como se pode ler nos últimos versículos do Evangelho segundo Mateus – que alguns críticos julgam ter sido adulterados após a ressurreição -, deu aos apóstolos a missão de ensinar as comunidades e batizá-las. Sabemos que Pedro batizou cerca de 3 mil pessoas, mas Paulo, por sua vez, não praticou a imersão em ninguém (sic)…” (PÉRÈS, Jacques-Noel. O homem público. In: História viva – grandes temas : Um homem chamado Jesus, edição especial temática nº 10, p.51). O professor de teologia francês esqueceu-se, talvez, de que Paulo chegou, sim, a batizar, como vemos em At.19:4,5 e I Co.1:14,16. Outrossim, devemos entender o texto, que talvez tenha sido mal traduzido, como sendo batismos determinados por Jesus, pois todos os quatro evangelhos descrevem o batismo de Jesus por João. Além disso, a menção a batismo feito por Jesus não está apenas em Jo.3:22, mas, também, em Jo.4:1,2, onde se esclarece que Jesus, mesmo, não batizava, mas, sim, Seus discípulos e, pelo que entendemos, sem qualquer determinação do Senhor, mas por influxo das palavras do Batista.

– Assim, vemos que João adianta que haveria um batismo nas águas por determinação de Jesus, o que explica a menção que se faz em Jo.3:22 e 4:1,2 de que discípulos de Jesus passaram também a batizar nas águas, o que é suficiente para demonstrar que, embora Jesus mesmo não batizasse, o ensino de João era no sentido de que haveria de surgir um batismo nas águas determinado pelo Messias, que, unido ao batismo com o Espírito Santo (Mt.3:11), representariam a superioridade do ministério do Cristo em relação ao de João.

– Não há descrição de batismos durante o ministério terreno de Cristo única e exclusivamente porque não era, ainda, o momento da instituição desta ordenança. O batismo cristão representa a morte e ressurreição de Jesus, mas, durante o ministério terreno do Senhor, isto ainda não havia ocorrido, de forma que não haveria razão alguma para que isto fosse estabelecido por Jesus. Não há, pois, qualquer “adulteração” que explique a menção do batismo tão somente após a ressurreição e o fato de ter sido posto em prática logo no limiar da igreja primitiva é a prova indelével de que se tratava de uma ordenança de Cristo Jesus, feita no tempo, modo e lugar apropriados (Ec.3:1).

– Ao argumento de João que levava em conta a inexistência de pecados por parte de Jesus, o Senhor apresentou um contra-argumento contra o qual João não pôde apresentar qualquer senão: “…Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt.3:15 “in fine”).

– Por que Jesus deveria ser batizado, se não tinha qualquer pecado? Porque era conveniente cumprir toda a justiça. Jesus foi batizado para que “se cumprisse toda a justiça”.Mas que era “cumprir toda a justiça”, cumprimento, ressalte-se, que não era exclusivo de Jesus mas também de João, pois Jesus Se utiliza do pronome “nós”, envolvendo, pois, o próprio batizador neste cumprimento?

– Para tanto, é necessário que entendamos o significado do ministério de João Batista, como já visto supra. Ele tinha de dar conhecimento da salvação ao povo de Israel, que esta salvação se daria pela remissão dos pecados e pelas entranhas de misericórdia de Deus. Assim, somente cumpriria o seu ministério no exato instante em que mostrasse ao povo quem era Aquele que tinha vindo para perdoar os pecados, para a realização da misericórdia divina e a prova de que Deus havia visitado o Seu povo.

– Para tal demonstração, João tinha de batizar Jesus, pois Jesus tinha de Se apresentar como Aquele que haveria de ser a propiciação dos pecados do povo, mas, para tanto, era indispensável que assumisse a condição do pecador, ou seja, tomasse o seu lugar. Não haveria remissão dos pecados sem que se tivesse a substituição do pecador pelo Cordeiro, se não se tivesse o pagamento do preço do pecado por parte dAquele que jamais pecara.

– Jesus, mesmo não tendo pecado, tinha de assumir a humanidade em toda a sua plenitude, ou seja, assumir o lugar do pecador, mesmo nunca tendo pecado. Esta identificação teria de se dar pelo batismo de João, já que é o ministério de João o ministério que preparava o caminho do Senhor. João anunciava a chegada do Messias e o Messias tinha que Se apresentar a ele. Até aí o profeta havia entendido. O que ele não sabia é que o Messias tinha que assumir a condição de Cordeiro, tinha de Se sacrificar em lugar dos pecadores e, para tanto, já no início de Seu ministério público, tinha de Se identificar com o pecador, assumir-Se como irmão (Hb.2:14-18).

– A “kenosis” de Jesus, ou seja, o Seu esvaziamento, o despir-Se de Sua glória (Fp.2:5-8) incluía a submissão ao batismo de João, não para que houvesse arrependimento de pecados, pois pecado algum havia sido cometido pelo Senhor, mas para que houvesse a assunção do lugar do pecador. Ao surgir publicamente perante o povo, Jesus Se apresenta como semelhante aos Seus irmãos, como um homem e, como tal, que necessita e depende de Deus e que, assim, atende ao chamado do mensageiro, do profeta levantado pelo Senhor.

– “Cumprir toda a justiça” é fazer a vontade de Deus, é prosseguir o caminho da obediência, que já havia retirado o Cristo da glória celeste e que agora iniciava a trajetória que O levaria até o Calvário. Chegara o instante de fazer a obra e Jesus diz ser necessário “cumprir toda a justiça”, o que, para João, era apresentar publicamente quem era o Messias e, para Jesus, dar início ao Seu ministério terreno.

– Somente quando Jesus desce às águas batismais, cumprindo, assim, toda a justiça, é que é ungido pelo Espírito Santo (Mt.3:16; Mc.1:10; Lc.3:21,22; At.10:38), passando, dali para a frente, a exercer o Seu ministério. Jesus não Se tornou o Cristo quando do batismo, mas passou a exercer os ministérios do Cristo a partir daquele instante e momento. Como explica Pedro, na casa de Cornélio, a partir desta unção é que Jesus passou a andar fazendo bem, curando todos os oprimidos do diabo.

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça”, portanto, porque era o ato pelo qual se dava início ao ministério público de Jesus, era o instante em que Jesus Se revelava ao povo de Israel como o Messias prometido. O batismo é, pois o ato inaugural pelo qual Jesus Se apresentaria como o Cordeiro imaculado, pronto a Se sacrificar pela humanidade. Não é à toa que, no dia seguinte ao batismo, João diz ser Ele o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo.1:29).

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça” porque era, também, um “ato de passagem” entre a lei e a graça, passagem esta que era Jesus, a “nossa páscoa” (I Co.5:7). A lei durara até João e agora vinha Jesus para nos trazer a graça e a verdade (Jo.1:17). Entre uma e outra, Jesus teria de morrer por nós na cruz do Calvário, mas o ato pelo qual o cordeiro foi trazido à apreciação pública foi, sem dúvida alguma, o Seu batismo.

OBS: “…Afinal de contas, não devemos entender o batismo de Cristo como um rito de passagem? A passagem do Antigo ao Novo Testamento. A passagem a ser adotada pela comunidade dos homens de fé, decididos a seguir pelo caminho indicado por João e aberto por Jesus….” (PÉRÈS, Jacques-Noel, op.cit., p.51).

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça”, porque revelava, ao povo de Israel, a realidade da Trindade Divina, de forma nunca antes alcançada pelo povo de Deus, Deus Se revelava em Suas três pessoas, em toda a Sua plenitude, não mais por sombras e figuras, como até então acontecera (Hb.10:1). Com efeito, ao sair das águas, Jesus, o Filho feito carne, era ungido pelo Espírito Santo, que assumira a forma corpórea de pomba e pousava sobre Ele, enquanto, do céu, o Pai, feito Voz, clamava: “Este é o Meu Filho amado, em quem Me comprazo” (Mt.3:16,17).

– Em nenhum outro instante na história sagrada, Deus havia Se revelado como sendo três pessoas e um só Deus. Verdade que já Se apresentara, desde o início, como sendo um único Ser divino mas plural, mas não havia a identificação de quem eram as três Pessoas divinas. No batismo de Jesus, “cumpria-se toda a justiça”, com a identificação do Pai, do Filho e do Espírito Santo. As três Pessoas Divinas, que são o único Deus, mostravam Seu amor e interesse na salvação da humanidade, sendo contempladas, pelo menos, pelo maior dos profetas da antiga aliança, que, por ter tido esta visão, como já falamos supra, foi o maior de todos os profetas.

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça” porque o ministério de João Batista se cumpria integralmente e, com ele, terminava o tempo da lei. Sendo a voz que clamava no deserto para preparar o caminho do Senhor, o ministério de João haveria de terminar no exato instante em que se iniciasse este caminho, o que se deu no batismo. João tinha de batizar Jesus e apresentá-lO como o Messias para concluir a sua tarefa, a sua missão. Não havia como João “cumprir toda a justiça”, senão batizasse o Senhor Jesus. Preparando o caminho de cada crente, João mostra que é preciso se submeter à vontade de Deus para que se tenha o cumprimento de toda a justiça. Como servos do Senhor, devemos, também, atender à vontade de Deus, mesmo quando isto nos parece incompreensível.

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça” porque, ao Se batizar, Jesus não estava a atender nenhum mandamento da lei de Moisés, que até então cumprira integralmente, mas ia além dos mandamentos. Por isso, temos de ir além da lei, se quisermos ser discípulos de Jesus: “…se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt.5:20b).

– Jesus não se submeteu ao batismo de João para cumprir a lei, como chegam alguns a dizer, pois o batismo de João não estava previsto na lei, nem mesmo na lei oral, na chamada “tradição dos anciãos” (Mt.15:2). Entretanto, Jesus atendeu ao chamado de João, que apontava para a insuficiência da lei para atender a vontade de Deus e, honrando a pregação de João, submeteu-Se ao batismo, chancelando que este batismo era dos céus, como, mais tarde, inquiriu os escribas e fariseus que, por seu legalismo, não creram no batismo de João. Não se “cumpre toda a justiça” se não se vai além do formalismo, além do legalismo, atitudes que devem ser superadas por todos aqueles que aceitam a Cristo como Senhor e Salvador de suas vidas.

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça” porque Jesus, enquanto homem dependente do Espírito de Deus, iniciava a Sua marcha de vitória contra o pecado e a morte, iniciava o caminho que nos levaria a ter comunhão com Deus. Ao renunciar a Si mesmo, Jesus mostrava qual o caminho que deveríamos seguir para termos a vida eterna. O batismo de Jesus, então, passa a ser um exemplo a ser seguido por tantos quantos cressem em Seu nome (I Pe.2:21).

– O batismo de Jesus “cumpria toda a justiça” porque significou o atendimento à vontade de Deus. Ser justo, antes de mais nada, é fazer a vontade de Deus. Jesus não precisava ser batizado, porque não pecara, mas Lhe era conveniente fazê-lo. O Pai, dos céus, disse que Jesus O agradava e o disse quando Ele saiu das águas. O ato do batismo foi, sobretudo, um ato para agradar a Deus, não um ato necessário para arrependimento ou perdão de pecados, porque não nos havia, mas para que se agradasse a Deus. Desde o batismo, Jesus Se mostrava favorável, agradável a Deus, o que permitiria que Ele fosse a “propiciação dos pecados de todo o mundo”. “Propiciação” é “ação ou ritual com que se procura agradar uma divindade”.

– Também precisamos, em nossa vida, procurar ser agradáveis a Deus. O apóstolo Paulo, na carta aos efésios, carta em que explica o mistério da Igreja, diz que somos agradáveis a Deus no Amado, ou seja, em Jesus Cristo, mas, para tanto, é necessário que cumpramos o propósito de santidade, irrepreensibilidade diante de Deus em amor (Ef.1:4), que façamos a Sua vontade (Ef.1:5,6). Temos cumprido toda a justiça? Temos seguido este sublime exemplo do homem Jesus?

Autor: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco

Sobre Andre Magalhaes

Meu Senhor é Jesus
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Uma resposta para O Batismo de Jesus.

  1. Ezequias Dias disse:

    goataria de sber se existe um manual para o professor de baismo?

    gostei muito do conteudo feitos pelos colaboradores desta obra, Deus o abemçoe

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