JESUS, O FILHO DE DEUS


INTRODUÇÃO

– Na lição anterior, vimos que a Bíblia nos mostra claramente que Jesus é Deus, o que bem verificamos na Sua qualificação como Verbo de Deus. Nesta lição, veremos que a expressão “Filho de Deus” também expressa esta mesma realidade: a de que Jesus é Deus, uma das Pessoas da Trindade.

– A expressão “Filho de Deus” nem de longe indica que Jesus tenha sido criado por Deus, como defendem alguns. Muito pelo contrário, a expressão se apresenta nas Escrituras como mais uma declaração de que Jesus é Deus, portador da mesma natureza do Pai.

I – O QUE É “FILHO”

Colaboração/Gráfico: Jair César

– A expressão “filhos de Deus”, no plural, surge, pela vez primeira, nas Escrituras, em Gn.6:2-4, na expressão hebraica “ben Elohim” (אלהים וכּ) expressão esta que tem sido alvo de muita discussão, mas que se entende serem os descendentes da linhagem de Sete. Assim, “filhos de Deus” são considerados aqueles que “invocam o nome do Senhor” (Gn.4:26), ou seja, aqueles que fizeram menção de servir a Deus, de ter a Deus como o seu Senhor. Em Jó 1:6, 2:1 e 38:7 (que muitos consideram ser o livro mais antigo das Escrituras), a mesma expressão “filhos de Deus” é utilizada, mas se referindo aos anjos, mais precisamente aos “anjos fiéis”, já que Satanás é mencionado à parte, nos dois primeiros textos, como um intruso, como alguém que se insere no meio dos “filhos de Deus” sem o ser.

– Em ambos estes textos, verificamos que a expressão “filhos de Deus” pretende demonstrar não uma relação de criação, ou seja, os “filhos de Deus” não são assim chamados porque foram criados por Deus, pois, se assim fosse, não seriam apenas “filhos de Deus” os descendentes de Sete, mas também os descendentes de Caim, como também Satanás não teria sido excluído da expressão, mas, sim, uma relação de comunhão, de compartilhamento da natureza, de semelhança de caráter, de sintonia espiritual.

– Esta mesma circunstância é repetida em o Novo Testamento, quando a expressão “filhos de Deus” (νιοι θεου) é utilizada pelo Senhor Jesus, no sermão do monte, para caracterizar os Seus discípulos (Mt.5:9), tendo o apóstolo João sido claríssimo ao afirmar que “filhos de Deus” são os que creram em Jesus (Jo.1:12), aqueles que são guiados por Deus, como bem esclarece Paulo na epístola aos romanos (Rm.8:14).

– Assim, a expressão “filhos de Deus” apresenta-se como uma relação de comunhão com Deus, de convívio com Deus, de integração na Sua natureza (cfe. II Pe.1:4), algo muito diferente de “criatura”, expressão que, na Bíblia, se refere a tudo quanto recebe vida da parte de Deus, seja no Antigo Testamento (Ez.1:20; 47:9), onde a palavra empregada é “chay” (תי), seja em o Novo Testamento, onde a palavra empregada é “ktisis” (κτίσις) (Mc.16:15; Rm.1:25; 8:19,21,39; II Co.5:17; Gl.6:15; Cl.1:23; Hb.4:13) ou sua derivada “ktisma” (κτισμα) (I Tm.4:4; Ap.5:13).

– Há, portanto, uma diferença substancial entre “filho” e “criatura” no texto bíblico. Em Ez.1:20, o ser celestial que é visto pelo profeta é chamado de “criatura vivente”, querendo, com isto, denunciar que aquele ser que contemplava em sua visão era uma criação de Deus, era um ser celestial. Não estava ali o profeta a fazer qualquer consideração a respeito da relação daquele ser com Deus, mas, sim, enfatizar que se tratava de um ser real, de um ser dotado de inteligência, de um ser superior que se lhe apresentava. Assim, pelo que vemos no texto, afirmar que algo é “criatura” é dizer que é um ser real, um ser criado por Deus, não uma fantasia, não o fruto de uma fértil imaginação. “Criatura” diz respeito a existência, a presença de uma vida concedida por Deus.

– Em Ez.47:9, o profeta, uma vez mais, utilizar-se-á da expressão “criatura” para, desta feita, falar dos seres vivos que habitarão no Mar Morto, que voltará a ter vida. “Criatura”, aqui, portanto, está intimamente relacionada com a vida concedida por Deus, com os seres criados pelo Senhor, sejam seres espirituais, sejam seres materiais, criados sobre a face da Terra.

– Esta distinção também é feita em o Novo Testamento. “Criatura” é todo ser criado por Deus. Quando o texto sagrado quer se referir aos seres criados por Deus como tal, não se utiliza da expressão “filho”, mas, sim, “criatura”. Em Mc.16:15, o Senhor Jesus manda pregar o Evangelho a toda “criatura”, aqui entendida a pessoa humana, mostrando, claramente, que, antes de se ter ouvido o Evangelho e crido, as pessoas nada mais são que “criaturas” e não “filhos”, o que somente ocorre quando crêem em Cristo, quando, então, se tornam “novas criaturas” (II Co.5:17; Gl.6:15). Este mesmo sentido é repetido por Paulo na epístola aos colossenses, quando se diz que o evangelho tem de ser pregado a toda criatura que está debaixo do céu.

– Este, também, o sentido empregado por Paulo na epístola aos romanos. Ao falar da corrupção geral da humanidade, Paulo diz que ela se caracteriza por se servir mais à criatura do que ao Criador (Rm.1:25), criaturas estas que são, no contexto, o homem corruptível, as aves, os quadrúpedes e os répteis (Rm.1:23). Em Rm.8:19, aliás, vemos o contraponto entre “filho” e “criatura”, pois o apóstolo nos fala que “a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”, ou seja, há uma espera de toda a criação pela redenção dos filhos de Deus, o que nos mostra claramente que são coisas distintas “os filhos de Deus” e a “criatura”. Ainda no capítulo 8 de Romanos, Paulo diz que nenhuma “criatura” nos pode separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, mostrando, mais uma vez, que não só criaturas e filhos de Deus são coisas distintas, como não há qualquer possibilidade de qualquer criatura abalar o relacionamento especial que existe entre Deus e Seus filhos, relacionamento este moldado pelo amor e na pessoa de Jesus Cristo. A filiação, como se vê, envolve algo muito mais sublime que a criação.

– Por fim, vemos que toda “criatura”, além de ter sido feita por Deus, e, por isso, ser naturalmente boa (I Tm.4:4), está totalmente sob o controle do Senhor, devendo perante Ele prestar contas (Hb.4:13), bem como reconhecer a Sua majestade e domínio (Ap.5:13), circunstância que nada tem que ver com a filiação, já que todos deverão se dobrar diante do Senhor Jesus (Fp.2:10,11).

– Assim, vemos, claramente, que, nas Escrituras, “filho” não se confunde com “criatura”, são conceitos distintos, que, muitas vezes, aliás, são contrapostos. Deste modo, se “filhos de Deus” não são “criaturas de Deus”, muito menos a expressão “Filho de Deus” pode significar “criatura de Deus”.

II – O QUE É “FILHO DE DEUS”

– Por primeiro, é bom salientar que a expressão “Filho” ou “Filho de Deus”, sempre surge no singular, sendo, portanto, uma expressão que, embora tenha a mesma conotação da que estávamos até aqui analisando, “filhos de Deus”, mostra uma distinção, uma exclusividade. A expressão “Filho” ou “Filho de Deus” apresenta-se no singular porque há apenas um Filho, porque Ele é único, não há outro. Ele é “o Filho”, sendo importante observarmos a presença deste artigo definido que, além de ser singular, também é determinado, perfeitamente identificado.

– A primeira vez que, nas Escrituras, temos o uso desta expressão designativa e distintiva “Filho” é no Salmo 2, um dos salmos ditos “messiânicos”, como também “reais”. Ali, Davi, inspirado pelo Espírito Santo, anuncia uma declaração do Senhor: “Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei” (Sl.2:7).

OBS: “…Este texto [Sl.2:7, observação nossa] tem dupla interpretação, pois fala do acordo que o Senhor fez com o Senhor, antes da encarnação de Cristo. Um faria o papel de Pai e outro faria o papel de Filho, pois Eles não eram conhecidos antes da encarnação de Cristo como Pai e Filho, respectivamente. Este texto é uma profecia a respeito do contrato da encarnação de Cristo, o mistério escondido no seio do Pai. Não se refere a um tempo misterioso onde Deus gerou Deus. Mas se refere à encarnação de Cristo, fato narrado novamente como cumprimento profético em Hebreus 1.(…). A promessa feita ao que faria o papel do Filho: a promessa da herança das nações. A fidelidade do Filho fará com que o Pai Lhe entregue a terra e a sua plenitude….” (ROCHA, Dr. Aldery Nelson. Bíblia revelada Di Nelson, v.29: Joel – a libação foi cortada na última semana de Daniel, pp.117-8)

– Este salmo apresenta os povos da Terra se levantando contra o Senhor e contra o Seu ungido, ou seja, contra o escolhido por Deus para reinar, o que os comentaristas têm aplicado seja a Israel, seja ao próprio Davi, já que Israel havia sido escolhido como “reino sacerdotal” (Ex.19:5,6), assim como Davi e a sua linhagem escolhidas para reinar sobre Israel para sempre (II Sm.7:8-16). No entanto, bem sabemos que o texto também se aplica a Jesus, como deixa claro o Espírito Santo ao revelar isto aos discípulos numa das mais marcantes experiências espirituais coletivas da igreja primitiva de Jerusalém (At.4:24-31).

– Vemos, pois, que o salmista revela uma contrariedade dos gentios, dos rebeldes contra Deus, contra o Senhor e contra o Seu Ungido (em hebraico, “Mashiach”, i.e., Messias e, em grego, “Cristo”). Este “Ungido” foi feito Rei sobre o monte santo de Sião pelo próprio Senhor (Sl.2:6) e o salmista é instado por Deus a repetir uma proclamação feita pelo próprio Deus, qual seja: “Tu és Meu Filho, hoje Te gerei” (Sl.2:7).

OBS: O texto da “Bíblia Hebraica”, tradução de David Gorodovits e Jairo Fridlin, é bem elucidativa e, por isso, a transcrevemos: ‘…Ele dirá: ‘Eu ungi o Meu rei, sobre Tsión, Meu santo Monte’. Proclamarei o que me disse o Eterno: ‘Tu és Meu filho, hoje te gerei’…” (Sl.2:6,7).

– Temos, pois, no Salmo 2, pela vez primeira nas Escrituras, a demonstração da natureza do relacionamento entre o Pai e o Seu Ungido, entre o Pai e o Cristo, qual seja, a de que o Cristo é o Filho. É importante vermos que não há possibilidade de se ter Filho sem que se tenha Pai. Se o Cristo é o Filho, isto é porque há um Pai.

– Chamar uma das Pessoas Divinas como “Pai” é muito interessante, porquanto, imediatamente, se uma das Pessoas é “Pai”, há de existir uma que é “Filho”. Processa-se, assim, algo semelhante a que se tem na gramática, onde a existência de uma “primeira pessoa” impõe a existência de uma “segunda pessoa”, pois, se alguém “fala”, fala, necessariamente, “com” alguém, pois a comunicação exige dois pólos para se efetuar.

– O mesmo ocorre aqui. Quando a Bíblia denomina uma das Pessoas divinas de Pai, está a nos dizer que existe um “Filho”, pois a “paternidade” é uma relação, não é algo que se possa ter isoladamente. Assim, logo de início, percebemos que a identificação de Deus como “Pai” já nos estabelece, na Bíblia Sagrada, duas verdades importantíssimas:

a) Deus, embora seja único, é plural em Sua personalidade.

b) Deus não é um ser que queira ser isolado, mas antes tem prazer em Se relacionar com outros seres, pois é Pai.

– A primeira vez em que Deus é chamado de “Pai” nas Escrituras é em Dt.32:6, quando Moisés, em seu último cântico, ao profetizar a respeito da corrupção dos filhos de Israel. Nesta passagem, Moisés afirma que, embora Deus fosse a verdade, a Rocha cuja obra é perfeita, seja justo e reto, os filhos de Israel se corromperam, são uma geração perversa e torcida e, por isso, “não são filhos dEle” (Dt.32:5). Com o pecado retribuíam ao Senhor, que é, então, chamado explicitamente de “Pai”, porque adquiriu, fez e estabeleceu aquele povo.

– Nesta expressão profética de Moisés, vemos no que constitui a “paternidade” de Deus, porque esta Pessoa Divina é denominada de “Pai”. Deus é chamado de “Pai” porque adquiriu, fez e estabeleceu Israel. Notamos, pois, que há um relacionamento entre Deus e Israel e, por isso, Deus é Pai de Israel, porque o adquiriu, o fez e o estabeleceu.

– Aqui, quando o salmista é instado a dizer que o Senhor proclamou, “recitou o Seu decreto”, declarando ao Ungido como “Seu Filho”, vemos o Senhor dizendo que é o Pai e que este Filho é único, distinto de todos os demais, mesmo os “filhos dEle”, expressão que nos remete aos “filhos de Deus”, algo de que tratamos supra.

– Este relacionamento explicitado pela declaração revelada ao salmista distingue o Filho de todos os demais seres e, por isso, mostra que a filiação é muito mais do que a aquisição, a feitura e o estabelecimento do povo de Israel. O Filho é alguém “ungido”, “separado” para um relacionamento especial com o Pai, relacionamento este que o fará herdeiro de todas as nações, que trará o governo de todas as nações a Ele, a uma posição de ser adorado por todos aqueles que, por nEle confiarem, serão bem-aventurados (Sl.2:8-12).

– Ser Filho, portanto, é ter condições de assumir o comando e controle de toda a terra, de todas as nações, por concessão do Pai, de estabelecer um canal com todas as nações, de modo que, aqueles que nEle confiarem e servirem a Deus com temor e se alegrar com tremor, alcançarão a bem-aventurança, ao passo que todos aqueles que se mantiverem rebelados contra o Pai e o Filho, serão esmigalhados, despedaçados como a um vaso de oleiro. Ser Filho, pois, é desfrutar de uma condição singular, a de fazer o contacto entre Deus e as nações, de mostrar o Pai a todos, oferecendo, assim, a vida e a bem-aventurança, a tantos quantos desejarem servir a Deus e a nEle confiarem.

– O salmista, também, mostra que o Filho é um ser divino. Embora tudo faça por anuência do Pai, o Filho é da mesma natureza que o Pai, por isso é o Filho. Não nos esqueçamos que o salmista diz que o Senhor chamou o Ungido de “Meu Filho”, algo distintivo e exclusivo. Ora, quando se diz Deus e o “Filho de Deus”, estamos a dizer de alguém que tem a mesma natureza de Deus. O salmista, no Salmo 8, por exemplo, mostra bem este ser o sentido da expressão no pensamento hebraico, quando fala do “homem” e, logo em seguida, do “filho do homem”, querendo com esta expressão falar do mesmo homem (Sl.8:4), algo que se repete em outras passagens das Escrituras, como, v.g., Jó 16:21; 25:6; Sl.144:3; Is.51:12; 56:2.

– A divindade deste Filho revelado ao salmista é tanta que esta personagem deve ser adorada, pois é este o sentido da expressão “Beijai o Filho”, que vemos no Sl.2:12.’Beijar o Filho” é adorá-lO, reconhecer a Sua autoridade, submeter-se a Ele, pois só assim se terá vida, só assim não se perecerá no caminho. O beijo, na Antigüidade, é ato de submissão, de reconhecimento de autoridade, de adoração. Vemos, pois, que o Filho é um ser que deve ser adorado, que concede vida, a denunciar, pois, que se trata de um ser divino.

– No Sl.80:17, salmo atribuído a Asafe, vemos o clamor do levita ao Senhor para que, na restauração do povo de Israel, do “rebanho do Senhor” (Sl.80:1), da “vinha do Senhor” (Sl.80:8), estivesse o Senhor com a Sua mão sobre “o varão da Tua destra”, “o filho do homem que fortificaste para Ti”. Aqui o salmista nos mostra que a salvação do povo dependia da atuação da mão do Senhor sobre “o varão da Tua destra”, “o filho do homem que fortificaste para Ti”. Temos, pois, que o “Ungido”, além de uma natureza divina, também teria uma natureza humana. É o “varão” (em hebraico ” ‘iysh ” – איש), o “filho do homem” (literalmente “filho de Adão”, em hebraico, “ben ‘adam” – אךם וכּ). Somente através deste “varão”, que está “à destra do Senhor”, poderia haver salvação (Sl.80:18).

– Este varão, que muitos comentaristas identificam com alguns reis de Israel ou mesmo com Zorobabel, sabemos que, profeticamente, é o Senhor Jesus, Aquele que, por ser Filho, está à destra do Senhor (At.7:55; Hb.1:13; Ap.3:21), posição singular que demonstra a Sua majestade, a Sua divindade, além da Sua humanidade declarada especificamente pelo salmista.

– No Sl.89, um masquil de Etã, o ezraíta, o salmista fala a respeito do “Ungido de Deus”, identificado não só com o rei Davi, mas com a descendência eterna que havia sido prometida a ele (Sl.89:4). Esta descendência, este “Ungido”, o “Santo de Deus”, o “Eleito do povo” (Sl.89:19) é, então, revelado “em visão” ao salmista, apresentado como tendo sido ungido com o santo óleo de Deus, alguém que é distinguido dos demais, como explicaria, mais tarde, em complementação a este salmo, o escritor aos hebreus (Hb.1:8,9).

OBS: “A palavra masquil numa versão portuguesa das Escrituras indica que o tradutor preferiu transliterar a palavra, ao invés ed dar-lhe uma tradução, pois embora a palavra Masquil seja o particípio de um verbo que significa “tornar sábio ou prudente”, o seu significado é impreciso nos salmos. Dados os demais sentidos do verbo, as interpretações poderiam ser “salmo eficaz” ou “salmo habilidoso”, dandoa entender que o mesmo expressa um devido entendimento prático e eficiente de algo a ser tratado no corpo do salmo, fruto da realidade do autor….(Rev. Raimundo Montenegro. In: Portal da Igreja Presbiteriana do Brasil. Disponível em: http://www.ipb.org.br/tira_duvidas/mostra_duvidas.php3?id=69 Acesso em 20 nov. 2007).

III – JESUS, O FILHO PRIMOGÊNITO DE DEUS

– Este “Ungido” é apresentado como Filho, pois chama ao Senhor de “Pai” (Sl.89:26), sendo, ademais, posto no Seu lugar de “primogênito”, mais elevado do que os reis da Terra (Sl.89:27). Aqui, portanto, vemos que o Filho é titular de um lugar exclusivo: o de “primogênito”.

– Dizer que o Filho é o “primogênito” não quer, em absoluto, dizer que Ele é a “primeira criatura”. Já vimos que “filho” e “criatura” são conceitos distintos, que não podem ser confundidos no texto sagrado. Mas, além de “filho” não ser “criatura”, é interessante observar que a “primogenitura” é resultado da invocação do Filho. Como diz a tradução direta do hebraico de David Gorodovits e Jairo Fridlin, o Ungido “é constituído” primogênito, ou seja, trata-se de uma posição que é adquirida, que não é resultado de criação, mas um direito concedido pelo Pai.

– A primogenitura, na Bíblia, mais do que uma posição de precedência de nascimento é um direito, uma bênção, tanto que Jacó a obteve mesmo não tendo sido o primeiro a nascer. A primogenitura, em Israel, ficou vinculada à idéia de pertencimento a Deus. Os primogênitos eram do Senhor (Ex.13:2). Israel, mesmo, foi chamado de primogênito de Deus (Ex.4:22), não porque tenha sido a primeira nação a ser formada pelo Senhor, mas porque Ele a escolheu para lhe ser a propriedade peculiar dentre os povos (Ex.19:5,6).

– O Filho de Deus é o primogênito, não porque tenha sido o primeiro a ser criado, mas, sim, porque foi o escolhido pelo Pai para ser o Seu Enviado (Jo.5:23,30,36,37; 6:39,44,57; 8:16,18,42; 12:49; 14:24; 20:21), ou seja, foi escolhido para ter Aquele que restauraria o relacionamento entre Deus e os homens. O Filho é Aquele que tem um relacionamento especial com o Pai, Aquele que sempre faz a vontade do Pai e que faz com que a Sua vontade prevaleça sobre todas as nações. Ele é o “primogênito” porque foi o escolhido para mostrar o significado da filiação e trazer outros para que também fossem aceitos como filhos, ainda que de natureza diversa da do Pai, seriam recebidos como filhos, seriam adotados como filhos, porque confiaram no Filho “primogênito”.

OBS: Aliás, segundo Russell Norman Champlin, a expressão “filhos de Deus” no hebraico tem, entre outras conotações, a de “enviados de Deus”, sendo, assim, semelhante à expressão grega “anjos”. Destarte, a expressão “filhos de Deus” pode significar “enviados de Deus” (Filho de Deus. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.2, p. 735) e, assim, quando se denomina o Senhor Jesus de “Filho de Deus” está-se a dizer que é Ele “o Enviado de Deus”, o Enviado por excelência, como nos retrata o apóstolo João em seu Evangelho, como mostram as referências indicadas, o que, aliás, dá um novo colorido à própria figura do “Anjo do Senhor”, associado às teofanias do Antigo Testamento, como salientado na lição anterior.

– É interessante ressaltar a idéia de que a “primogenitura” é o fruto de uma escolha, de uma deliberação do Pai, em virtude do relacionamento especial mantido entre ambos. O Filho foi “gerado”, ou seja, como vimos na lição anterior, foi “manifestado”, “revelado” como Aquele que tinha um relacionamento perfeito de comunhão com o Pai e, por isso, a Pessoa apropriada para nos levar ao conhecimento do que é esta relação e, assim, enquanto Deus e enquanto homem, nos levar a ter o mesmo relacionamento: “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm.8:29).

– Foi este o sentido que Paulo deu ao dizer que Jesus é o “primogênito de toda a criação” (Cl.1:15), precisamente por ser “a imagem do Deus invisível”, ou, como diz o escritor aos hebreus, “a expressa imagem da pessoa do Pai” (Hb.1:3), expressões que só confirmam aquilo que o próprio Jesus havia dito a Seu respeito, notadamente quando afirmou que quem O visse, estava a ver o Pai (Jo.14:9). Jesus é o “primogênito” “…por ser o primeiro a pertencer à espécie humana espiritual, o protótipo de todos os remidos, cuja imagem será neles impressa, com perfeição, quando da ressurreição e glorificação dos santos….’ (CHAMPLIN, Russell Norman. Primogênito. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.5, p.384).

– Jesus é o primeiro a ser revelado aos homens como “a imagem do Pai” e, por isso, é o “primogênito”, o primeiro a irromper a imagem do Pai, na Sua plenitude, para a humanidade. Aliás, em hebraico, “primogênito” é “bekor”, ou, nas suas variantes, “bekirah” e “bakar” (כוךכּ), significa “aquele que primeiro irrompe, ou seja, aquele que primeiro aparece, surge.

– Através do Filho, Deus falou-nos nos últimos dias (Hb.1:1), revelando-se na Sua totalidade, totalidade esta entendida, logicamente, como aquilo que é necessário para que o homem saiba a fim de se conformar à mesma imagem (Jo.15:15), de sorte que não há outro que possa ter sido o primeiro a revelar o próprio Deus em Sua inteireza. Jesus é, assim, o “primogênito de toda a criação”, não o primeiro a ser criado, visto que é o Criador de todas as coisas (Cl.1:16), mas o primeiro a mostrar, a revelar, em Sua integridade, o Pai. Só Jesus fez conhecer a Deus (Jo.1:18).

OBS: Eis, aliás, um dos motivos pelos quais Moisés disse que surgiria um outro profeta no meio do povo de Israel (Dt.18:15,18), profeta este que falaria tudo o que viesse da parte de Deus, sendo, portanto, maior que o próprio Moisés, que não pôde ver a Deus em Sua integridade (Ex.33:20). Como disse o escritor aos hebreus, enquanto Moisés foi servo fiel em toda a sua casa, o Filho é o próprio edificador da casa e, por isso, digno de maior honra (Hb.3:2-6).

– Assim, além de ser o primeiro a revelar a “imagem do Pai”, Jesus também é o primeiro a ter, como homem, assumido esta imagem e, sem pecado, ido até a morte com esta imagem, vencendo o mundo e nos dando condições de também o fazer. Assim, por ter vencido a morte, foi ressuscitado dentre os mortos e, assim, se constituiu no “primogênito entre muitos irmãos” (Rm.8:29), o “primogênito dentre os mortos” (Cl.1:18; Ap.1:5). “…Ele foi o primeiro a experimentar à morte e voltar à vida com uma nova modalidade de vida, revestido de imortalidade em Seu próprio corpo. Na qualidade de Logos eterno, Jesus Cristo já era plena divindade; mas, quando da Sua ressurreição, o Seu próprio corpo humano foi divinizado, isto é, veio a participar da natureza divina. Os filhos de Deus, remidos pelo sangue de Cristo, haverão de receber essa nova natureza, essa imortalidade no corpo…” (CHAMPLIN, Russell Norman. Primogênito. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.5, p.384). Por isso, Jesus é chamado de “as primícias dos que dormem” (I Co.15:20).

– Assim, a idéia de que o Filho é o primogênito não tem qualquer relação com o ser “primeira criatura”, mas, sim, a circunstância de que foi o primeiro a manifestar a imagem do Pai e, nesta manifestação, por ter Se humanizado, sido, também, o primeiro ser humano a vencer a morte e o pecado e a aparecer em corpo glorioso, o primeiro de uma série, os filhos de Deus que o Pai Lhe há de conceder (Jo.6:37,39,44,45,65; 10:29; Hb.2:13b). Aliás, no mesmo instante em que Paulo chama a Cristo de “primogênito de toda a criação”, de “primogênito dos mortos”, também o chama de “princípio” (Cl.1:18), a mostrar que é ele o princípio, ou seja, em grego, a “arché” (αρχή), ou seja, como vimos, na lição anterior, a fonte de tudo, o Criador de tudo, o que torna completamente impossível que o texto queira significar “primeira criatura”, como insistiam, no século III, os discípulos de Ário e como ensinam equivocadamente, na atualidade, as Testemunhas de Jeová.

OBS: Ário foi um presbítero de Alexandria, que viveu entre os anos 256 e 336 d.C., líder de uma das maiores heresias que perturbaram a Igreja no período pós-apostólico, pois ensinava que Jesus era um ser criado, ou seja, negava a divindade de Jesus. Por causa do desenvolvimento de sua doutrina, que ameaçou a própria unidade doutrinária da Igreja, foi convocado o Concílio de Nicéia que, em 352, confirmou o ensino bíblico da dupla natureza de Cristo. O pensamento de Ário a respeito de Cristo é praticamente o que foi adotado por Charles Taze Russell, fundador das Testemunhas de Jeová.

IV – JESUS, O FILHO UNIGÊNITO DE DEUS

– Em Os.11:1, também, temos uma referência ao “filho”, referência esta que, no contexto, parece ser apenas a Israel, que, quando menino, isto é, nação recém-formada, foi chamada do Egito por Deus para com o Senhor firmar um pacto e se tornar a nação peculiar de Deus entre os povos. No entanto, como nos ensina Mt.2:15, esta referência também era uma profecia a respeito de Jesus, que, enquanto menino, também, foi chamado do Egito, para onde fora com seus pais por determinação divina, ante o furor de Herodes contra as crianças nascidas em Belém.

– Nesta passagem, vemos, claramente, que o Filho é diverso de Israel e de qualquer outro ser do Universo. Embora o profeta se dirija a Israel como o filho chamado do Egito, em Os.11:2, vemos que, ao mencionar os pecados do povo, é utilizado o plural, que contrasta com o singular do versículo primeiro. Percebe-se, assim, que, se Israel e Cristo foram ambos chamados do Egito, somente Israel pecou, de modo que o Filho mantém singular na Sua fidelidade e obediência ao Pai (Jo.8:29;12:50), sendo, portanto, excluído da continuidade da descrição do profeta. O Filho chamado do Egito que não pecou, que Se fez homem mas, mesmo assim, venceu o pecado, é o “primogênito de toda a criação”, “o princípio e o primogênito dentre os mortos”, Aquele que é igual ao Pai (Jo.5:18,19,26; 10:30).

– Esta singularidade do Filho, que já tantas vezes temos salientado ao longo deste estudo, explica a expressão “Unigênito do Pai” (Jo.1:14) ou “Filho Unigênito”(Jo.1:18; 3:16; I Jo.4:9) ou, ainda, “Unigênito Filho de Deus” (Jo.3:18), todas expressões cunhadas pelo apóstolo João para se referir ao Senhor Jesus. Além destas expressões, a palavra “unigênito” só aparece na Versão Almeida Revista e Corrigida em duas outras oportunidades: em Zc.12:10, onde também se refere a Jesus e em Hb.11:17, quando Isaque é chamado de “unigênito”.

– A palavra “unigênito” significa “filho único”. Em Zc.12:10, a palavra hebraica é “yachyid” (יחיך), que significa, precisamente, “filho único”, como também a palavra que aparece nos escritos joaninos é o grego “monogenes” (μονογενής), palavra, aliás, que, sem se referir ao Senhor Jesus, é repetida em outros textos do Novo Testamento, como em Lc.7:12, para se referir ao filho único da viúva de Naim; em Lc.8:42, para se referir à filha única de Jairo e em Lc.9:38, para se referir ao jovem lunático, que também era filho único.

– Como se verifica, portanto, “Unigênito” quer dizer “único” e, neste sentido, vemos que Jesus é Único, o Filho Único, Aquele que é Filho por natureza, porque é Deus, que é tão eterno quanto o Pai, que é igual ao Pai, que é Um por natureza com o Pai, Aquele que é antes de todas as coisas (Cl.1:17), Aquele que estava com Deus e é Deus (Jo.1:1). Não é por outro motivo que o próprio Jesus Se distingue dos demais “filhos de Deus”, já ressurreto, ao falar em “Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus” (Jo.20:17).

– Quando se vê que Jesus é o “Filho Unigênito”, cai por terra toda e qualquer argumentação de que seja Ele uma “primeira criatura”, “o mais excelente ou o maior de todos os homens”. Ele é único e, deste modo, não há ninguém igual a Ele. Não pode, pois, ser confundido com os anjos, pois eles são muitos, milhares de milhares, milhões de milhões (Sl.68:17; Hb.12:22; Ap.5:11), nem tampouco ser confundido com os seres humanos, embora Se tenha feito carne (Nm.1:16; 10:36; Dt.33:2; Dn.7:10; Lc.12:1; Jd.14). Assim, não se pode dizer que Jesus seja algum dos anjos (como Miguel, Gabriel ou qualquer outro), nem que seja tão somente um ser humano como qualquer outro.

– Jesus é o “Unigênito” porque só Ele “…participa, desde toda eternidade passada, da natureza divina(…). O Filho ‘era’, não ‘tornou-se’. Ele é alguém eternamente gerado, porquanto não teve começo no tempo….” (CHAMPLIN, Russell Norman. Unigênito, Cristo como o. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.538).

– Ninguém jamais teve ou terá a mesma natureza de Jesus. Ele é o Filho de Deus por natureza, é igual ao Pai. Os salvos, na atualidade, embora sejam filhos de Deus, porque creram no Seu nome (Jo.1:12), não são ainda como Ele é (I Jo.3:1,2), porque ainda temos um corpo corruptível (I Co.15:42-54). Entretanto, mesmo quando formos glorificados, seremos tão somente semelhantes a Ele, visto que, embora passemos a ter um corpo glorioso, teremos sido “transformados”, seremos “tornados” como Ele passou a ser após a ressurreição, mas permaneceremos sendo criaturas de Deus, criaturas redimidas, tornadas eternas, mas, ainda assim, criaturas, tanto que nos assentaremos com o Filho no Seu trono, enquanto o Filho estará no trono do Pai (Ap.3:21).

– Jesus é Unigênito, porque, enquanto é Filho por natureza, nós somos filhos por adoção (Rm.8:15; 9:4; Gl.4:5; Ef.1:5). Desta maneira, o fato de sermos feitos filhos de Deus, o fato de sermos glorificados não retirará, em absoluto, a condição de Unigênito do Senhor Jesus, tanto que, quando o Senhor Se manifestar para salvar a Israel, na batalha do Armagedom, acompanhado dos Seus santos, já glorificados, o pranto que os israelitas manifestarão será o pranto como o pranto do “unigênito”, ou seja, o choro como quando se chora pela perda de um filho único (Zc.12:10), mas até nesta expressão se mostra que o Senhor Se apresentará como Unigênito, como Aquele que é Único, apesar de toda a redenção do corpo dos arrebatados, que com Ele estarão, redenção esta que a Bíblia chama de adoção (Rm.8:23).

– Corroborando esta visão de Zacarias, temos a visão do profeta Daniel, que, na visão dos quatro animais simbólicos, também viu um como “o filho do homem”, que se dirigiu ao ancião de dias e que se chegou até Ele, recebendo o domínio e honra, um domínio eterno, que jamais passará (Dn.7:13,14). Vemos, pois, que, embora seja de Israel o choro como o choro de um unigênito, o fato é que este que vem do céu é o Filho, Filho que tem acesso ao “ancião de dias”, ao Pai, Filho que é “um”.

– Jesus é Unigênito, porque é o Filho de Deus (Mt.8:29; 27:35; Lc.1:35; 22:70; Jo.1:34; II Co.1:19; Gl.2:20; Hb.4:14; I Jo.4:15; Ap.2:18), enquanto que os que nEle crêem foram feitos filhos de Deus (Jo.1:12; Gl.3:26), foram chamados para ser filhos de Deus (Mt.5:9; I Jo.3:1), filhos de Deus que ainda não assumiram, em toda a sua plenitude, tal condição (Rm.8:19,21 ; I Jo.3:2). Assim, só Jesus é Filho de Deus desde sempre, é o Único, o Unigênito.

– Por fim, é interessante observar que o fato de ser “unigênito” não significa que se é exclusivo. Neste passo, elucidativo é o texto de Hb.11:17, onde Isaque é chamado de “unigênito”. Ao fazê-lo, o escritor aos hebreus mostra que o fato de ser “único” não significa que não haja outros filhos. Com efeito, sabemos que Abraão teve outro filho além de Isaque, Ismael (Gn.16:15), mas, nem por isso, Isaque deixou de ser chamado por Deus de “único filho” (Gn.22:2), uma vez que só Isaque era o “herdeiro da promessa” (Gn.17:15-21; Rm.9:8; Gl.4:22). Assim, também, embora haja outros filhos de Deus, Jesus é chamado de “Unigênito”, de “Único”, pois só Ele é o “herdeiro da promessa”, a promessa feita no Éden para a humanidade, a “semente da mulher” (Gn.3:15) ou, como preferiu traduzir a Versão Almeida Revista e Atualizada e a Nova Versão Internacional, o “descendente da mulher” bem como a “posteridade de Abraão” (Gl.3:16).

– Neste passo, vemos quão maravilhoso é o amor de Deus para conosco (I Jo.3:1). Enquanto Isaque era o “unigênito” e, deste modo, não herdaram a promessa nem Ismael, nem os filhos de Cetura (Gn.25:2,5), Jesus, embora Se mantenha Unigênito, fez-nos herdeiros da promessa (Rm.9:8; Gl.4:28,31). Por isso, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (Rm.8:16,17). Por isso, Jesus é superior, é o Único. Aleluia!

V – O PAPEL DE JESUS COMO FILHO DE DEUS

– Vemos, portanto, que as Escrituras mostram que Jesus é o Filho de Deus e que ser “Filho de Deus” é dizer que Jesus é Deus e, mais do que isto, que é uma das Pessoas divinas, pois vemos claramente que há uma distinção entre Pai e Filho. Embora ambos sejam um (Jo.10:30), as Escrituras esclarecem que se tratam de Pessoas distintas, visto que nos diz que o Pai ama o Filho (Jo.3:35), envia o Filho (Jo.5:23,37), tem uma vontade (Jo.5:30), não deixava o Filho sozinho (Jo.8:29), agrada-Se do que faz o Filho (Jo.8:29), glorifica o Filho (Jo.8:54, 12:28) entre outras passagens. Há uma perfeita sintonia entre Pai e Filho, porque ambos são Deus, têm a mesma natureza (Jo.5:17-21,26; 8:18; 12:50; 14:9,10; 16:15), são o único e verdadeiro Deus.

– Mas ser Filho, além de dizer que é Deus, significa também que Jesus foi enviado para revelar a Divindade aos homens. Com efeito, o Filho, que estava no seio do Pai, teve a missão de fazer o Pai conhecido dos homens (Jo.1:18; 8:19,26,27,38; 10:32; 12:49; 14:7-10; 16:15). Como Filho, Jesus é o Enviado, como já dissemos supra, a Pessoa que Se humanizou para que Deus Se revelasse à humanidade, o Emanuel, o Deus conosco (Mt.1:23).

– No entanto, ser Filho de Deus é algo que nos revela algo mais do que a possibilidade de conhecermos a Deus, pois isto já havíamos visto na lição anterior, quando observamos que Jesus é o Verbo de Deus. Ser Filho também nos mostra que Deus é um ser relacional, ou seja, um ser que estabelece relacionamento, que quer se relacionar com o homem. Enquanto Verbo, apenas aprendemos que Deus quer Se comunicar com o homem, fazendo-o pelo Verbo, o Logos, mas, quando aprendemos que Jesus é o Filho, entendemos que Deus é um ser que Se relaciona, um ser único que, porém, é uma pluralidade de Pessoas, Pessoas que Se relacionam, tanto que a que Se revela ao homem é o Filho, a indicar que há um Pai e que tal relacionamento é um relacionamento de amor, tanto que denominadas as pessoas de Pai e de Filho.

– Ao nos revelar que é o Filho de Deus, Jesus nos mostra que Deus quer manter um relacionamento de amor com o homem, que a Sua essência é o amor e que há uma disposição divina para restaurar esta comunhão perdida com o homem por causa do pecado, restauração esta que se dá em termos de amor. Ao Se apresentar como o Filho, Jesus mostra que é amado do Pai (Jo.5:20; 10:17;14:31;15:9) e que o Pai ama o homem, tanto que enviou o Filho (Jo.3:16) e, por meio dEle, ama a todos quantos O recebem (Jo.8:42; 14:21,23; 16:27). Por ser Filho, Jesus nos mostra Seu grande amor, ao dar a Sua vida por nós (Jo.10:17; 13:1; Rm.5:8).

– Ao nos revelar que é o Filho de Deus, Jesus nos mostra que, para amarmos a Deus, devemos renunciar a nós mesmos e fazermos a vontade do Pai (Mc.8:34; Lc.9:23). Ser Filho importa em fazer a vontade do Pai, em cumpri-la estritamente, por amor. Jesus é o Filho porque foi obediente até a morte (Fp.2:8), porque, como Filho, deveria fazer aquilo que o Pai determinou (Jo.5:30,36; 6:39; 8:29; 10:18; 12:27,49,50; 14:31; Hb.10:7).

– Ao Se mostrar como Filho, Jesus ensina que devemos obedecer ao Pai, que devemos guardar os Seus mandamentos, se quisermos alcançar a salvação (Jo.5:23). Não nos esqueçamos que a figura do filho está vinculada à obediência e à honra na lei de Moisés (Ex.20:12; Dt.5:16), figura da realidade espiritual descortinada pela graça de Jesus Cristo (Hb.10:1). Não podemos ser como os judeus dos dias do ministério terreno de Jesus, que desonravam o Pai (Jo.8:49) e, por isso, não receberam a Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador (Jo.1:11).

– Ao nos revelar que é o Filho de Deus, Jesus nos mostra que, ao estabelecermos um relacionamento com Deus, devemos seguir a Sua direção e orientação. O Pai é Aquele que deve nos ensinar, que deve nos guiar (Jo.6:45; 8:28). Também sabemos que a principal tarefa dos pais em relação aos filhos é o ensino (Dt.6:6-9; Ef.6:4), de forma que, ao Se mostrar como Filho, Jesus diz o quanto devemos seguir a orientação e o ensino do Pai, orientação e ensino que se encontram única e exclusivamente na Sua Palavra (Rm.15:4), até porque somente conhecemos o Pai pelo Filho (Jo.14:6-11), que é, como vimos na lição anterior, a própria Palavra (Jo.1:1; Ap.19:13).

– Ao nos revelar que é o Filho de Deus, Jesus nos mostra que o propósito da vida nada mais é senão glorificar a Deus através das nossas obras. Jesus é o Filho porque fez o Pai conhecido dos homens e este conhecimento se deu por meio da glorificação do Pai, glorificação que só foi possível por causa das obras realizadas pelo Filho (Jo.5:36; 10:25,32,36-38; 14:10-13; 15:24;17:1). Ao sermos feitos “filhos de Deus”, precisamos ter esta mesma consciência, de que devemos glorificar a Deus em nossas vidas, em nossas obras (Mt.5:16; Jo.15:8,16; 20:21).

– Por fim, devemos observar que as Escrituras demonstram que todas as criaturas reconheceram que Jesus é o Filho de Deus, não havendo, pois, como se negar tal verdade. Diz-nos a lei de Moisés que o testemunho de dois ou três é verdadeiro (Dt.17:6; 19:15; Mt.18:16; II Co.13:1; I Tm.5:19; Hb.10:28). Pois bem, há muito mais que duas ou três testemunhas a mostrar, na Bíblia Sagrada, que Jesus é o Filho de Deus.

– Pois bem, no anúncio da concepção de Jesus, é Ele apresentado pelo anjo Gabriel como o Filho de Deus (Lc.1:35). Depois, temos o testemunho do próprio Jesus, ainda adolescente, quando Se apresentou aos Seus “pais social-biológicos” como o Filho, na medida em que dizia tratar dos negócios de Seu Pai (Lc.2:49). Ao longo do Seu ministério terreno, Jesus sempre Se declarou Filho de Deus, tendo sido este, aliás, o motivo de toda a oposição que enfrentou (e até hoje enfrenta) por parte dos judeus (Mt. 27:43; Jo.5:18; Lc.22:70; Jo.9:35-37; 10:36; 11:4; 19:7).

– Mas, para que o testemunho de Jesus não ficasse sem a devida confirmação (Jo.8:16,18), o Pai declarou, também, mais de uma vez, que Jesus é o Filho de Deus (Mt.3:17; 17:5; Mc.1:11; 9:7; Lc.3:22; 9:35; Jo.12:28), como também pessoas que conviveram com o Senhor o declararam ao longo de Seu ministério terreno (Mt.14:33; 16:16; Jo.1:49; 6:69; 11:27).

– O Espírito Santo, também, declara que Jesus é o Filho de Deus, porquanto vemos, em primeiro lugar, que João Batista, cheio que era do Espírito, testificou que Jesus é o Filho de Deus (Jo.1:32-34). Posteriormente, observamos que os apóstolos, possuidores e revestidos do Espírito Santo (Jo.14:17; 20:22; At.2:4), ousadamente pregavam que Jesus é o Filho de Deus (At.9:20; II Co.1:19; I Jo.4:15), O que não é surpreendente, visto que o trabalho do Espírito de Deus é, precisamente, lembrar aquilo que o Senhor Jesus disse e ensinou (Jo.14:26; 15:26).

– O próprio diabo, ainda que querendo lançar Jesus na dúvida, admitiu que Jesus é o Filho de Deus (Mt.4:3,6; Lc.4:3,9), sendo, a este respeito, seguido nesta declaração pelos seus anjos, que também afirmaram ser o Senhor Jesus o Filho de Deus (Mt.8:29; Mc.3:11; Lc.4:41).

– Por fim, vemos que a própria natureza testificou que Jesus é o Filho de Deus, quando da crucifixão, o que fez com que o centurião romano reconhecesse que Jesus é o Filho de Deus, ante tamanha alteração da natureza (Mt.27:45,51,54; Mc.15:38,39; Lc.23:44-47).

– Por isso, ante tantas testemunhas e tantos testemunhos, como podemos rejeitar esta verdade bíblica? Eis o motivo pelo qual todos quantos a rejeitarem, ante a extrema dureza de seus corações, acabarão por sofrerem a morte eterna, já que não receberam o Filho e, por não terem o Filho, não têm a vida (I Jo.5:12). Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo, tem o testemunho e quem a Deus não crê mentiroso O fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de Seu Filho deu (I Jo.5:10). Não haverá, portanto, como alegar ignorância naquele dia, que para quem não tem a vida, será fatídico e trágico (Ap.20:14,15). Que creiamos que Jesus é o Filho de Deus e tenhamos, assim, a vida eterna (I Jo.5:20). Amém!

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Meu Senhor é Jesus
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